(Áudio disponível apenas em português)
Por Deborah Rocha
Foto: Vartan Ohanian
A vida intrauterina não possui vida microbiana e a microbiologia não tem nada a ver com essa etapa da vida: falso e arqui-falso.
Um estudo recente descobriu que a microbiota intestinal das mulheres grávidas produz vesículas extracelulares capazes de migrar para o líquido amniótico. Elas podem preparar o intestino fetal para ser colonizado pelos microrganismos da futura microbiota, desempenhando assim um papel na imunidade do bebê e do futuro adulto.
A descoberta foi publicada em novembro de 2023 por uma equipe de pesquisadores finlandeses da Universidade de Oulu. É como se cada bactéria liberasse uma mini bolha – ou seja, passamos do micrômetro ao nanômetro (que corresponde a 10-9). Essa pequeníssima bolha que contém elementos bacterianos – não são bactérias inteiras, mas fragmentos de bactérias – é que foram encontradas no líquido amniótico.
Finalmente começamos a perceber que uma “educação do sistema imunológico” (pois o feto também possui um sistema imunológico) poderia começar desde a vida intrauterina, porém sob a influência da microbiota intestinal da mãe. É um tipo de ensino que começa bem devagarinho, em doses ínfimas.
São dados muito apaixonantes que nos permitem ver como age o mecanismo de saúde da mulher grávida sobre o seu feto, visto com lentes que dão um zoom no infinitamente pequeno. Resumindo: a vida microbiana própria e individual da criança começa de fato no momento do nascimento, mas o impacto da microbiota sobre o desenvolvimento da criança e do futuro adulto começa já desde a gravidez. Temos assim uma janela de compreensão através de partículas infimamente pequenas encontradas no líquido amniótico.
Isso porque quando nascemos, nos tornamos seres híbridos: metade humanos, metade microbianos. Somos todos micro quimeras. Recebemos de nossos pais cerca de 23 mil genes – número insignificante comparado aos 3,3 milhões de genes pertencentes às bactérias alojadas em nosso corpo. Enquanto um homem de 70 quilos é formado por 70 trilhões de células, em seu intestino existem 100 trilhões de bactérias. Os outros 600 trilhões são encontrados na pele (10 mil em cada 2 centímetros), boca, cavidade nasal, seios da face e aparelho gênito-urinário.
A conclusão a que chego é que no fim das contas a saúde é uma linha tênue entre saúde e não-saúde, epidemia e não-epidemia. Não à toa grandes descobertas científicas foram feitas durante momentos de crise.
Se o pai da microbiologia foi o holandês Leeuwenhoek, Louis Pasteur, um outro célebre microbiologista, pode ser considerado o pai da imunologia moderna. Entre a metade e o final do século XIX, ele demonstrou que os microrganismos causam doenças e descobriu como fazer vacinas a partir de micróbios enfraquecidos ou atenuados.
Não é exagero dizer que a partir de suas pesquisas para erradicar a epidemia da pebrina que atacou o bicho-da-seda (sim, olha ele aí!), assolando por completo os campos de amoreiras de toda Europa, Pasteur desenvolveu as primeiras vacinas contra a cólera aviária, o anthrax e a raiva.
No século 21, é como se engatinhássemos em direção a uma nova era e a uma nova medicina que no futuro assumirá as rédeas da nossa metade microbiana. Estamos só no começo de algo novo! É um mundo em si!



